Conheces as papoilas? Flor vermelha, que nasce espontâneamente, mas muito frágil. Um dia quando encontrares uma, experimenta a arranca-la para ti. Observa-a bem; não se vai aguentar viçosa por mais de cinco minutos, não vai ter como se defender. Vai tornar-se, a cada segundo que passa, mais frágil, até morrer por completo.
É o que nos acontece, por cada dia que envelhecemos. Vamos ficando sem defesas, até um dia falecer. A minha avó, era como se fosse a minha papoila, que guardo entre os livros, a servir de marcador. Quando lhe tirei a vida pensei que ia continuar a brilhar sempre, mas estava enganada. Morreu. E a minha avó morreu, não porque eu lhe tirei a vida, mas porque tão simplesmente chegou a altura dela.
Assistiu a um dos meus primeiros sorrisos, deu-me um dos meus primeiros banhos, ouviu uma das minhas primeiras palavras, viu como dei um dos meus primeiros passos. Ouvi uma das primeiras histórias de encantar, daquelas que nos fazem sonhar, ao colo dela e também chorei no seu ombro. Tanto aprendi com as histórias de vida dela, o que viu, o que sentiu, o que viveu. A minha avó era forte, e sempre me ensinou a ser forte. Agora chegou a minha hora de ser forte.
Dizem-me que ainda tenho a outra avó, mas uma pessoa não faz esquecer outra. É como o primeiro amor que nunca se esquece.
Chegou a altura de trazer ao coração, todas as boas recordações que tenho dela:
- De se ter cansado de rir, quando, em pequena, me cortei porque quis por tulicreme no pão sozinha;
- De ralhar quando eu me escondia e principalmente quando sabia que eu tinha feito asneira;
- De me ter ensinado as contas básicas se somar;
- De se rir quando eu queria dormir com todos os meus peluches na cama;
E tantos outros "des" que eu poderia agora referir.
Pensa que a tua vida é como se fossem aqueles cinco minutos, desde que arrancas a papoila e ela morre. Repara como agora estás bem, e como daqui a cinco minutos podes já não estar. Por isso, nunca guardes para ti aquelas palavras de que às vezes podes ter medo ou vergonha de dizer. Pode nunca mais surgir oportunidade de o fazeres. Não tenhas vergonha de dizer o quanto gostas de uma pessoa, ou simplesmente, mostrar-lhe o quanto a amas.
Por tudo o que foste e, por tudo o que és para mim:
Amo-te Avó.